A Velha Cidade Que Vai Desaparecendo

Braga, Rua do Anjo, fotografia de Luís Tarroso Gomes

originalmente publicado aqui

Todas as semanas desaparece um pouco da história de Braga. Na reconstrução da cidade antiga vão sendo eliminadas, progressivamente, as camadas históricas que se foram acumulando, encaixando e misturando ao longo de mais de 2000 anos. É verdade que de certa forma sempre foi assim: a cidade fez-se a partir da destruição ou readaptação da anterior.

Todavia nas últimas décadas, em virtude da facilidade de demolir e de edificar de raiz e também de um certo monolitismo das nossas empresas de construção civil, praticamente desapareceu o conceito de restauro. Quando se fala em reabilitar, recuperar ou restaurar o centro, na verdade o que se quer dizer é fazer de novo o antigo. Com cimento e tijolos.

Por isso, a cidade “antiga” que temos hoje é cada vez mais jovem. A visão ultrapassada de património que nos chega da Praça do Município apenas considera dignos de restauro aqueles monumentos que vemos nos guias e alguns edifícios de maiores dimensões. Tudo o resto é dispensável e actualizável. Que cuidado tem havido em preservar construções do séc. XX, o interior de casas oitocentistas o ou mobiliário urbano que se vai retirando? Ou pondo o problema de uma forma mais científica, e só para referir exemplos do séc. XXI, que critério justificou a demolição dos Correios, da antiga rua que atravessava esse quarteirão, do palacete Matos Graça, de parte da Fábrica Confiança e que ao mesmo condiciona um comerciante do centro na escolha do seu reclame? A Câmara licenciaria hoje o belíssimo anúncio do Porto Sandeman existente até há pouco tempo no topo de um edifício no Largo de S. Francisco?

Com excepção de uma dúzia de exemplos, a maioria dos “restauros” revela um profundo desprezo pelo que lá existia antes. São reclames comerciais, candeeiros, escadarias em madeira, tectos trabalhados, madeiras exóticas, vestígios de ruas e de prédios desaparecidos, pinturas, azulejos, recantos, etc que fazem parte da cidade ainda que escondidos e que perdemos para sempre.

É certo que é impossível preservar tudo ou ainda viveríamos nos edifícios de Bracara Augusta. Mas deixar na mão dos proprietários (empreiteiros muitas vezes) a decisão do que deve ser preservado em cada imóvel tem vindo a transformar a nossa velha cidade numa versão de plástico, asséptica como a Disneylândia. Cada vez mais há ruas que parecem cenários de novela de tão artificiais que são. Tal como se observa nas casas “antigas” recriadas da fotografia acima, corremos o risco de ter no centro outra Lamaçães, embora camuflada de antiga.

Nem sempre interessa manter tudo o que é antigo. Por vezes é mesmo impossível ou pouco relevante recuperar. Ou até é mais interessante fazer um edifício novo marcante. Em todos estes casos, tem de haver o cuidado de registar cuidadosamente o que se vai fazer desaparecer. Não deveria a Câmara delegar esta competência no Museu da Imagem ou no Arquivo Municipal?

Curiosamente, apesar do desprezo pelo antigo, é sempre o centro histórico que os políticos nos vendem para ganhar eleições e não as novas urbanizações que licenciaram. Todas as semanas desaparece um pouco da nossa história: será que ao mesmo tempo vamos gerando algo suficientemente interessante de forma a não prejudicar as próximas gerações?

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