a auditoria e a verdadeira herança

auditoria

A auditoria revelou o que já toda a gente imaginava: alguma trapalhada nas contas oficiais, principalmente no que foi feito a contrarrelógio. Da pouco pensada Capital Europeia da Juventude – preocupada sobretudo em pagar bons salários, fazer ajustes directos e aparecer todos os dias no jornal – aos desnecessários 103 milhões em campos sintéticos, da obra do túnel feita à pressa para servir o Liberdade Street Fashion ao muito admirado e premiado – mas ainda por pagar – estádio novo. A resposta do PS revela o que já era habitual antes e se mantém enquanto oposição: uma enorme falta de vontade de estudar, de reflectir e de aprofundar seja o que for.

O resultado da auditoria não é, porém, demasiado relevante – ainda que quem endividou a cidade mereça a mais veemente censura. Na verdade, a auditoria é apenas uma ínfima gota de água no mar de sarilhos do concelho. Revela apenas as discrepâncias do mundo da formalidade. A parte submersa do icebergue dos custos, a que a auditoria não chega, não tem fim. São milhares de decisões erradas ao longo de 37 anos que recebemos em herança e que condicionarão por dezenas de anos esta cidade. São o resultado de uma visão tacanha e de um péssimo planeamento dos executivos de Mesquita Machado que tomaram, a pretexto de um conceito de progresso muito duvidoso, opções e investimentos irreversíveis assentes num profundo desprezo pelo património, pela história, pela natureza e pelo futuro. São infindáveis os exemplos e os custos a eles associados:

– É o custo de se terem perdido para sempre dezenas de edifícios antigos, centenas de pormenores históricos, partes relevantes de uma importante cidade romana, reduzindo o conceito de património ao mais básico e evidente;

– É o custo de se terem construído quilómetros de edifícios ineficientes, de fraca qualidade e cheios de problemas, de loteamentos descontínuos entre si, que criaram uma feiíssima muralha de betão a esconder a velha cidade – não há um único bairro recente que mereça visita;

– É o custo de toda a gente ter de usar carro para se conseguir deslocar em qualquer outro percurso que não seja dentro do centro pedonal, numa cidade feita para carros, desconfortável para os mais velhos e insegura para as crianças;

– É o custo de existirem vários parques industriais mas nenhum deles com acessos, devidamente equipado e com ar convidativo;

– É o custo de se terem construídos dezenas de estradas mal traçadas, em sítios errados, que criaram uma rede sem sentido e não resolvem o problema do atravessamento da cidade;

– É o custo de não se ter pensado o transporte ferroviário para os próximos 50 anos, fechando todos os canais para ligações a outras cidades;

– É o custo de se terem gerado elevadas expectivas nos proprietários com a reclassificação em PDM do solo para altamente urbanizável;

– É o custo de se terem construídos dezenas de equipamentos imprescindíveis e caríssimos mas mal localizados;

– É o custo de se terem licenciado prédios e loteamentos por todo o concelho, obrigando a uma ramificação insustentável das infraestruturas básicas;

– É o custo de se ter regenerado o que não precisava, deixando o que precisa sem obras e sem qualidade de vida;

– É o custo de nunca se ter estudado nada – a não ser quando era preciso sacar dinheiro do QREN;

– É o custo de vivermos há anos fechados dentro de casa sem espaços verdes dignos desse nome – ou de sermos forçados a fazer exercício ao lado da poluição dos carros nas rodovias;

– É o custo de não se ter acautelado um parque nas Sete Fontes, comprado a Fábrica Confiança ou protegido as Convertidas quando era mais fácil e barato;

etc, etc

Não fosse o centro histórico e Braga era um susto!

É este o legado de uma cidade quase toda recente mas profundamente doente e contam-se pelos dedos da mão as obras de valor que enriquecem Braga sem a onerar. O custo do investimento errado da autarquia – e do Estado Central, por mau acompanhamento local – é gigantesco nestes 37 anos. E aumenta todos os dias com o enorme desperdício que uma cidade mal pensada gera: do custo de andarmos todos de carro à energia a mais consumida por todos os apartamentos que foram mal construídos e precisam de refrigeração e aquecimento.

E se é importante saber quem fez o quê, o lamento do passado de pouco servirá até porque todos estes problemas já existiam antes da auditoria. Ainda que ingrato, é na correção destes erros que se verá se o actual executivo é capaz de inverter a velha tendência de pensar mal e a curto prazo. E não vale a pena esperar pela Justiça: a maior parte daquele maravilhoso “progresso” de Mesquita Machado em que vivemos não é efectivamente crime. São “tão-só” opções erradas. Mas mesmo que o Ministério Público arquive todas as queixas, o que fizeram a Braga não tem perdão.

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