MITOS DO S. GERALDO – Nº 3: ah e tal, não há dinheiro

O que não há é estratégia. A compra a pronto pela Câmara (CMB) deve ser vista como o último recurso. Não foram os que estão contra a demolição do S. Geraldo que exigiram a aquisição. Foi a CMB que, numa tentativa de calar as vozes críticas, atirou para o ar um valor de 5 milhões. Esse valor não tem qualquer sustentação e até o Arcebispo já disse em entrevista que nunca propôs esse valor. Ora, sem valores rigorosos, os palpites de qualquer dos lados de nada servem.

De qualquer forma, só uma enorme falta de imaginação pode ver uma compra a pronto pela CMB como a única solução. Curiosamente é a própria CMB que vem demonstrar que existem outras soluções! Para a Junta de S. Lázaro, a CMB propõe-se arrendar, com opção de compra, o Pé Alado (na foto, à direita do S. Geraldo). Independentemente da falta de rigor e dos valores exagerados do contrato*, a Câmara demonstra que a falta de dinheiro para a aquisição é uma desculpa esfarrapada.

Mas, dirão os críticos, mesmo que este ano apenas seja necessário um valor baixo, onde é que se vai buscar o dinheiro para renda e uma pequena reabilitação? É simples: basta que os 2,5 milhões de euros que a CMB prevê investir em 2016-17 na Fábrica Confiança sejam repartidos com o S. Geraldo. Aliás, não percebo por que razão a fábrica não funciona já como espaço cultural com pequenas reparações (nas mesmas condições, já lá antes houve teatro, concertos e exposições). Será a mania portuguesa de estoirar milhões em equipamentos para os poder inaugurar?

E para quê construir um auditório de raiz na fábrica Confiança se temos uma sala centenária e histórica como o S. Geraldo? Um S. Geraldo Cultural beneficia da proximidade e ligação interna ao Theatro Circo, o que permite economias de escala (impossíveis na Confiança): a bilheteira pode ser a mesma para ambos, parte dos equipamentos técnicos e das instalações podem ser partilhados, até o pessoal pode servir as duas estruturas.

Para termos um Quarteirão das Artes, mais do que ter dinheiro, é preciso ter uma estratégia para o S. Geraldo. O que não quer dizer que tenha tudo de ser feito à pressa e já. O Theatro Circo, por exemplo, demorou 18 anos entre a compra e a reabertura com todas as condições (2006) e em Guimarães (que já tem várias salas de espetáculos) a compra do Teatro Jordão está a ser efetuada em 10 prestações anuais.

Acima de tudo é absurdo gastar dinheiro a demolir dois edifícios em relativo bom estado (S. Geraldo + Pé Alado) para construir um novo espaço comercial** – com todos os indicadores de que será efémero – criando mais um problema no centro e destruindo uma sala de espetáculos única e com potencial turístico. E que tal manter os dois edifícios e arrendá-los com opção de compra? O Pé Alado já está. Só falta o S. Geraldo!

*não se percebe se a Câmara vai arrendar o edifício do Pé Alado que existe (com 5 pisos) ou uma fração a edificar. São situações distintas e as áreas dificilmente serão iguais. Sendo a Câmara a entidade licenciadora, é estranho – ou pelo menos muito amador – que isso não conste do contrato…

**na parte de baixo da foto, o edifício dos Correios antes de ser destruído para mais um projeto comercial de sucesso…

FOTO: as duas salas de espetáculo, com as caixas de palco respetivas

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