Braga podia ser das crianças!

13522794_1131695676903191_3178493239587522619_oEm Braga não há muitos locais onde possamos deixar os mais pequenos andarem de bicicleta à vontade. As ciclovias são perigosas ou porque funcionam lado a lado com vias rápidas ou porque não têm proteções junto ao rio. Mesmo na área pedonal é impossível deixar um miúdo pedalar sem a atenção permanente de um adulto. Há sempre veículos que surgem dos mais diversos locais! A avenida Central serve, até, para os condutores acelerarem de forma a chegarem mais rápido à saída na Senhora-a-Branca, ignorando que passam à porta duma escola (o colégio D. Pedro V). E fora da zona pedonal nem vale a pena pensar em deixar as crianças pedalarem sozinhas.

Toda a cidade é muito perigosa. Mas tem de ser assim? Claro que não. E não é preciso ir a um país nórdico. A uma hora e pouco daqui há uma cidade que acabou com a prioridade dada aos carros. O médico e Presidente da Câmara de Pontevedra Miguel Fernández pôs fim à ditadura não saudável dos automóveis. E as crianças são uma prioridade porque como o próprio explica “cando están na rúa fan que a cidade sexa máis segura”. Em toda a cidade – e não apenas na zona histórica – a prioridade é dada aos peões. Seguem-se, por ordem, as bicicletas, os transportes públicos e somente em quarto lugar os restantes veículos. Promove-se a coexistência no meio urbano entre os vários modos e para isso há um limite de 30km/h e inúmeras medidas de acalmia de tráfego (que já produziram uma redução drástica dos acidentes).

Inspirado na obra “Cidade das Crianças” do psicopedagogo italiano Francesco Tonucci, o projeto “Camiños Escolares” leva ainda mais longe o objetivo: as crianças são convidadas a irem sozinhas para a escola! Sozinhas, como? Foram criados corredores seguros até às escolas e os pais são incentivados a não levarem as crianças de carro à porta da escola mas a deixá-las em qualquer ponto desses corredores. A pé ou de bicicleta, 25% dos alunos já aderiram, vencendo-se igualmente o medo que os pais tinham! Esta medida envolve os comerciantes da cidade que se prontificam a ajudar as crianças nestes percursos assinalando as suas lojas como locais amigos. Mais: as escolas ocupam e deixam os alunos brincarem nos espaços públicos da cidade e as crianças são ouvidas na tomada de decisões da Câmara Municipal precisamente porque têm um ponto de vista próprio.

Pontevedra é um caso de sucesso porque não optou por medidas avulsas mas por um plano integrado de mobilidade e que está sempre em evolução.

Com tantos anos de atraso em Braga, é estranho que praticamente nada se tenha feito neste mandato camarário que tinha condições para ser inovador nas questões da mobilidade. Bastava começar por corrigir alguns dos problemas óbvios herdados da gestão anterior pro-automobilística. Já passaram 2/3 do mandato e estamos no mesmo ponto de 2013 (ou de 2003…): uma enorme falta de atenção ao dia a dia da cidade e ao que se passa à volta.

(versão adaptada do texto escrito para o Braga Ciclável)

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