Precisamos de Gestão Feminina nas Nossas Cidades!

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[Este mês a diretora da Revista Rua desafiou-nos a refletir sobre as mulheres na política. O tema é pertinente porque se há área onde a igualdade real é ainda uma miragem é na política]

Em 2015 residiam em Braga quase 10.000 mulheres a mais do que homens. Ainda assim, a política local é coisa de homens. Tanto quanto consegui apurar, somente em 1989 tomou posse a nossa primeira vereadora – Maria do Céu Sousa Fernandes. Foi provavelmente a primeira da história da cidade e a única até ao final do século XX. Apenas em 2001 conhecemos a segunda vereadora eleita.

Atualmente, à frente das Juntas de Freguesia temos 36 homens e apenas uma mulher. Esta desproporção tem consequências na composição da Assembleia Municipal que conta com a participação, por inerência, dos presidentes de junta. Assim, apesar da lei da paridade obrigar a uma mulher em cada três candidatos, na prática mais de quatro em cada cinco membros da Assembleia Municipal são homens – ainda que a presidente seja uma mulher. Na Câmara, a situação está um pouco menos desequilibrada: entre os 11 eleitos em funções, quatro são mulheres (duas com pelouros). Mas a presidência e a vice-presidência são masculinas.

Não nos debatemos apenas com um problema de subrepresentatividade. Se atentarmos nos pelouros que foram atribuídos às cidadãs eleitas até hoje em Braga percebemos que se circunscrevem a temáticas que poderíamos rotular de mais leves.

No atual executivo há duas vereadoras, que gerem os pelouros da cultura/educação e juventude/desporto. Os grandes pelouros, porém, continuam nas mãos dos quatro homens eleitos. E as empresas municipais, com exceção do Theatro Circo, são administradas em exclusivo por homens (InvestBraga, AGERE, BragaHabit, TUB). O cenário não é muito diferente em Guimarães e Famalicão. Parece que a mulher na política está reduzida a um estereótipo que nos faz lembrar ainda o papel que o Estado Novo lhe queria impor. Por que razão nunca temos mulheres a dirigir o urbanismo, o planeamento, a proteção civil, as obras públicas ou a dinamização económica?

A não participação das mulheres nas decisões da cidade tem várias razões. Por um lado, a logística da vida familiar continua a ter em 2017 um peso determinante, situação que se agrava em caso de monoparentalidade. As mulheres são responsáveis por muitas das tarefas extra – seja cozinhar, fazer compras ou tratar dos filhos – que colidem com o horário noturno reservado à política ou pelo menos à sua iniciação. E, se não têm disponibilidade para esta fase inicial, parece que ficam irremediavelmente fora do circuito decisório. Por outro lado, ao assumirem na política missões secundárias, acabam por ter menos visibilidade e não servir de exemplo e inspiração a outras mulheres.

É uma crítica recorrente que a política está desenhada de uma forma que parece demasiado aborrecida e inacessível aos cidadãos. Creio que as mulheres se sentem ainda mais distantes desse mundo tão masculino, tão moroso e tão pouco pragmático.

Mais do que se insistir que é preciso mais mulheres na política, o que é importante é perceber como é que elas podem fazer política e fazê-la à sua maneira. Pode ser à frente da cidade, duma empresa municipal ou a melhorar o seu bairro. Todavia, enquanto desvalorizarmos e desperdiçarmos a opinião, a energia e a sabedoria femininas estaremos a afastar mais de metade da população bracarense e estaremos a construir um concelho pior.

(e muitos parabéns à Revista Rua que apostou este ano numa diretora!)

fotografia da Assembleia Municipal de Braga: Adriano Ferreira Borges

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