Saudades do Miguel Bandeira (sem ironia)

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Muitos verão nos edifícios em obras no centro histórico o pulsar da reabilitação urbana. Eu temo que muito poucas intervenções correspondam a uma reabilitação do existente como fazem as cidades que querem distinguir-se pela sua História. Digo-o sem conhecer os pedidos de licenciamento mas sabendo o que estas enormes gruas estão a fazer e farão aos edifícios construídos sem esquadria e com técnicas e materiais antigos [as reabilitações verdadeiras precisam de grua?]

Autorizar a construção de prédios novos em betão, reduzindo a pó todo o esforço dos nossos antepassados, é um erro que vai sair caro a Braga. E o centro histórico não é infinito e as casas antigas esgotar-se-ão.

Não há nenhuma razão para que isto não se impeça.

Continua em vigor o essencial do Regulamento de Salvaguarda do Centro Histórico que é bastante protecionista, dando um controlo quase total à Câmara Municipal. E, na última revisão feita já neste mandato, a Câmara Municipal acrescentou-lhe novas normas de proteção.

A Câmara promoveu ainda, assinando com outros municípios, a «Convenção de Braga para a Salvaguarda do Património Cultural» que, entre outros princípios, proclama a «necessidade de identificar, estudar e avaliar a salvaguarda e a devida integração das pré-existências com as intervenções arquitetónicas de hoje como condição prévia à intervenção» e «a proteção do património arquitetónico salvaguardando os interiores e os elementos arquitetónicos, plásticos ou decorativos mais expressivos, bem como as técnicas construtivas utilizadas».

No caso desta praça, a sensibilidade devia ser bem maior por ser única e notável. Esse reconhecimento existe, ao menos, na classificação nacional como Imóvel de Interesse Público: o Campo Novo «apresenta elevado valor histórico e arquitetónico, forma com as ruas emergentes um núcleo de grande qualidade formal; manteve ao longo do tempo os valores originais e de exceção» [palavra do Estado].

Claro que não havendo vontade real de preservar, todos estes instrumentos são para inglês ver. Ao contrário do que seria de esperar de um tempo novo, neste mandato foram dezenas as casas antigas cujo interior desapareceu, tal e qual as práticas do cego e infindável mesquitismo.

Nos primeiros tempos, este «novo» executivo dava a entender que em muitos licenciamentos havia os direitos adquiridos no tempo da outra senhora (os ditos esqueletos no armário). Não sei se era verdade. Sei que já não é: estas novas gruas nascem dos licenciamentos tramitados e concedidos pela atual maioria PSD-CDS, cujo vereador do pelouro respetivo é Miguel Bandeira.

E refiro-me ao Miguel, não para lhe apanhar as contradições, nem para o julgar, mas porque tenho, sem qualquer ironia, saudades de ouvir, de aprender e de ser surpreendido pela pertinência das intervenções do velho Miguel Bandeira defensor intransigente desta cidade. Em conferências, em conversas casuais de rua, no Entre Aspas, nas entrevistas, em artigos publicados, o velho Miguel continuaria a alertar-nos para a política de fachadismo que elimina a identidade e a peculiaridade da nossa cidade. E a ensinar-nos que esta singularidade passa por um sem-fim de detalhes que têm de ser estudados e mantidos.

A Braga, faz bem mais falta o velho e interventivo Miguel Bandeira do que o novel vereador do urbanismo que – ainda que acatado por quem precisa dele – é, na melhor das hipóteses, muito pouco considerado.

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